Babi Xavier - Foto: Alex Grand
BABI XAVIER
Entre os holofotes da televisão, os desafios da maternidade e os processos silenciosos de reconstrução pessoal, Babi Xavier atravessou décadas de transformação sem perder a própria essência.
Babi Xavier - Foto: Alex Grand
Em uma conversa profunda e extremamente humana com a Revista KEA, ela revisita momentos marcantes da carreira, reflete sobre os impactos da exposição feminina nos anos 90, fala sobre maternidade solo, autoconhecimento, espiritualidade e a busca constante por propósito.
Muito além da imagem que o público conheceu ao longo dos anos, Babi Xavier compartilha pensamentos maduros sobre identidade, pressão estética, saúde emocional, relações, envelhecimento e liberdade feminina. Com sinceridade, sensibilidade e força, ela revela como aprendeu a ressignificar dores, desconstruir padrões impostos às mulheres e construir uma vida mais alinhada à própria verdade.
Nesta entrevista exclusiva para a Revista KEA, a artista também abre espaço para falar sobre sua relação com a filha, os desafios emocionais da maternidade, sua decisão de estudar Psicologia e o desejo de continuar se reinventando em todas as fases da vida. Uma leitura inspiradora, acolhedora e necessária sobre coragem, consciência e recomeços.
Leia agora a entrevista completa na Revista KEA.
Babi Xavier - Foto: Alex Grand
Babi Xavier - Foto: Alex Grand
1. REVISTA KEA
Você construiu sua imagem em um momento em que a exposição feminina era intensa e pouco questionada. Hoje, como mulher e mãe, o que você ressignificou dentro de si ao olhar para aquela fase?
Babi Xavier:
Sim, fui, mas nunca me garanti na faixa da "bonita". Sempre busquei me diferenciar dentro do que fazia sentido para mim porque, para ser considerada bonita, havia muita validação externa em jogo! Pessoas de 50 anos atrás podem vir de uma criação em que achar-se talentosa em algo, ou, até bonita, era vaidade demais, era arrogância. As pessoas é que deviam dizer isso de você, se você fizesse direitinho por onde! Achar-se inteligente, habilitada, então, calma lá, né?! Foi triste.
Eu entendi que a “natural" competição feminina não tem nada de natural, mas é construída numa cultura em que muito serve ao - também erguido, construído - universo masculino.
E coisas que nos eram também colocadas como naturais, como os cargos de liderança para homens e de lideradas para as mulheres, a diferença salarial dos gêneros frente ao mesmo cargo, o assédio moral e sexual no ambiente de trabalho, são coisas que agora conversamos abertamente, ressignificamos íntima e publicamente, percebemos que, como eram, essas práticas estavam adoecendo muitas pessoas. Ainda temos um longo caminho adiante, então, mãos à obra!
Eu sou da safra de 74 e ouvi todas as regras sociais sobre o corpo feminino. Que bom que pude desconstruir muito do que foi “vendido” como o certo(se quiséssemos ser bem sucedidas!) para todas nós, mulheres. Chega da sedução de buscar ser a escolhida na prateleira do amor. Chega de papéis às mulheres, de roteiros de gerações. Chega de dizerem “isso é culpa sua” sem eu participar.
2. REVISTA KEA
Ao longo da sua trajetória, você foi muitas vezes percebida a partir da imagem. Em que momento você sentiu que sua identidade começou a ser definida mais por quem você é e não pelo que viam em você?
Babi Xavier:
Como comecei minha carreira artística trabalhando como modelo, depois fui atuar na TV, eu era “aquela modelo, aquela atriz” nos trabalhos: aquela alta, aquela cabeluda, aquela de boca grande, aquela sorridente, etc. Aquela.
Eu entendo que o primeiro beijo é com o olhar, vem o primeiro sorriso e assim seguem-se as relações. Mas, e o arrepio de quando a gente ouve uma música linda pela primeira vez? E quando a gente lê um texto de alguém que não conhece e se apaixona pela forma como aquela pessoa descreve as coisas dentro da gente? É nisso que eu reflito. Eu busquei a minha voz, meus achismos, validei minhas descobertas e sentimentos e os coloquei para fora. É fácil isso? Não. Isso veio com a alegria dos acertos na vida e com a maturidade. O tempo tem que passar para a gente assentar o conteúdo, sabe? Você tem que ser a primeira pessoa a construir, a definir e, então, expressar sua identidade. Com amor será quase sempre melhor do que com agressividade e sempre melhor do que com desrespeito. Se você trabalha o autoconhecimento e se gosta, as pessoas enxergam a autenticidade e se achegam. Melhor alguém gostar (ou não) de você, tendo te visto de perto, tendo conversado, convivido com você, com o que você banca ser. Se alguém fala de você e insiste na atitude “não a conheço e não gosto dela”... bom, todo julgamento é uma confissão. 😊
Babi Xavier - Foto: Edu Rodrigues
3. REVISTA KEA
Existe um ponto pouco visível na maternidade: a solidão emocional mesmo quando se está fazendo o melhor possível. Em algum momento você sentiu esse silêncio e como lidou com ele?
Babi Xavier:
Sim, muito, e até hoje eu sinto solidão, pois fui e sou ainda uma mãe solo. Falarei da minha experiência e não como de uma regra: quando um filho nasce, a sociedade mostra o pacto, o consenso(?) de que ele é da mulher, é da mãe e ponto. O pai da minha filha foi embora quando ela tinha 1 ano e 10 meses de idade. Foi assustador e confuso para mim e foi duríssimo para ela. A gente não nasce sabendo cuidar, nunca houve isso. Falam para a gente que mulher é cuidadora nata. Falam e falam um monte de outras coisas que não dizem de você, são de quem fala, mas são dirigidas a você. Haja terapia, haja alimento espiritual para se descolar, respirar, acalmar e fazer o que acredita. Fiz muita terapia, exercício físico, procurei uma Igreja que me ensinasse muito sobre Jesus, encontrei a Igreja Plena de Icaraí, uma igreja protestante, calvinista, de reflexão, e entrei na FAMATH, que é referência em psicologia, para entender a mente por dentro, para saber um norte por onde começar a interpretar minhas características reais e as atitudes e projeções dos outros. Hoje, sou Mama loba, ou Mama Boss, como a minha filha diz, e isso é uma coisa boa!
4. REVISTA KEA
A maternidade transforma prioridades de forma profunda. No seu caso, ela reorganizou seus sonhos ou apenas mudou o ritmo com que você decidiu vivê-los?
Babi Xavier:
No meu caso, mudou meu ritmo. Achei que tinha desistido de sonhar quando estava exausta e me sentindo só, e eu escrevia muito sobre isso em folhas e folhas de cadernos para ajudar a processar tudo, mas o tempo passou, aprendi muito, e hoje estou menos cansadaaaaa rs ! Pra cima!!! 🚀
5. REVISTA KEA
Você sempre transitou entre diferentes áreas da comunicação e arte. Depois de se tornar mãe, suas escolhas profissionais passaram mais por propósito, necessidade ou intuição?
Babi Xavier:
Passaram por possibilidade! Eu decidi ser mãe aos 36 e tive a Cinthia aos 37 anos. Ser mãe nessa idade tem vantagens: você já garimpou muito, já abriu caminhos, já cicatrizou, provavelmente está entendendo um pouquinho sobre como e para onde vai a sua vida, já se conhece um pouco e não leva as relações tanto no automático. Se não tivesse um propósito até aquele momento, ali era hora de pari-lo - antes de Cinthia nascer! Deve-se ouvir a intuição e reconhecer a necessidade de ter propósitos de verdade nos setores da nossa vida. O que quero aprender? Com quem quero estar? Onde gostaria de trabalhar? Estou entendendo o mercado de trabalho? E, muito importante: qual vida quero viver quando eu for a “ Babi velhinha “? Porque se alguém acha que entra e sai dessa vida sem filhos, está enganado. Você, velhinho, é o primeiro filho de quem você, desde jovem, tem que tomar conta, que guardar estrutura, saúde e conhecimento, alimentar bem as boas relações. Não pensamos muito nisso porque não suportamos a finitude e porque essa educação deve vir desde cedo e não temos um país craque nisso.
Babi Xavier - Foto: Edu Rodrigues
6. REVISTA KEA
Em um cenário onde a mulher ainda sente que precisa dar conta de tudo, qual foi o aprendizado mais importante que te fez entender que equilíbrio não é perfeição?
Babi Xavier:
Ainda, nenhum. Só o auto perdão me desacelera. Consigo isso aos poucos, sabendo que a minha imperfeição não é parâmetro para outra mulher, e vice-versa. A Sociedade do Cansaço, livro que fala da Sociedade do Desempenho, da autoexploração, do imediatismo, da auto exigência, do multitasking, do cansaço positivo de tanto produzir em menos tempo, é um analisador, não só do adoecimento de homens e mulheres, mas de uma manobra para com a mulher e sua independência, sua autonomia.
7. REVISTA KEA
Sua decisão de estudar Psicologia revela uma busca por compreensão mais profunda do ser humano. Essa escolha nasceu mais da sua trajetória pessoal, da maternidade ou de uma inquietação que sempre esteve presente?
Babi Xavier:
Uma mistura boa das três coisas! Eu falei em fazer o vestibular para a psicologia lá na 5ª série! Depois, fui me interessando pela língua inglesa de tal forma que entrei para o curso de Letras da UFF. Saí bem antes de terminar entendendo que seria uma modelo somente com aquela idade (19 anos era tarde para uma modelo começar, à época), e não depois, mas, sempre inquieta, continuei estudando meus outros interesses, dentre eles o mundo do audiovisual. Continuar a carreira artística mesmo depois da vinda da Cinthia é algo bom, muito bom, pois ela me vê feliz e madura no caminho que me escolheu, ou que escolhi para mim.
Babi Xavier - Foto: Renato Moretti
Babi Xavier - Foto: Alex Grand
8. REVISTA KEA
Sua filha cresce em uma realidade onde o passado digital é acessível. Como você construiu, com ela, uma narrativa que valoriza sua história sem que ela se torne um peso?
Babi Xavier:
Nada é sobre nós sem nós, certo? Então, sempre me apropriei da narrativa que deve ser minha quando é sobre mim. Podem haver imprecisões em algumas notícias ao longo do tempo , mas ela me conhece há quase 15 anos: sou presente, mão na massa, e jamais evitei conversas claras ou difíceis. Quando aconteceu o bullying com ela por ser minha filha, por causa da minha profissão, fiz o que pude para dar senso aos pais daquela escola em que ela estudou. Quando não adiantou, a contratação de um advogado criminal de peso contextualizou bem a questão, que enfim cessou, e ela ficou a par de todo o processo.
9. REVISTA KEA
Se você pudesse conversar com a mulher que estava no início da sua carreira, antes de tudo, o que diria para ela sobre sucesso, exposição e, principalmente, sobre o que realmente importa?
Babi Xavier:
Jamais duvide de si, mesmo sem todas as informações à vista. Jamais hesite diante da certeza de que você sempre, sempre foi suficiente no seu valor. Quando na insegurança, não paralise nem se deixe atrair a agir sem pensar. Um passo em recuo e olhos e ouvidos mais atentos podem ser protetores importantes.
Sei que ninguém fala disso, mas estude Liderança e Educação Financeira. Estude. Estude, busque, leia sempre. Um dia a menopausa vai te desafiar na mente, mas cerque-se de pessoas de almas lindas e autorresponsabilidade, que valham a pena ter ao seu lado até o fim dos seus dias, e nunca tenha medo da conversa difícil, mas cuide o tempo todo de suas palavras, pois elas são o que você tem a dar ao mundo. Escolha bem, escolha sempre, tudo. Jamais se iluda que o caminho é ser escolhida. Estude música, pois assim trabalhará os dois hemisférios do cérebro de uma forma que sua fase de "velhinha" vai te agradecer. Escreva suas gratidões, date e guarde numa caixa bonita que você vai levar para todas as casas para as quais vai se mudar. Escreva o nome de todas as cidades que está indo a trabalho, e a passeio, e a data de visita a elas. Um dia, você vai amar rever isso e ainda bem que estará tudo lá, escrito! Faça muitos cursos, junte 10% de absolutamente tudo que produzir, pois se escolher viver a parentalidade, poderá também escolher onde viver com seu filho/filha, e, a paz de ter o sustento, básico-decente que seja, virá no teu semblante tranquilo e confiante na hora de ensiná-lo(a) a enfrentar os desafios que certamente virão. Dis 25 aos 35 anos, estude muito, trabalhe muito, viaje em todas as oportunidades. Prime por segurança, sempre. Perigo não é liberdade. Dê teus pulos, mas durmaaaa. Depois, terá mais estrutura interna, conhecimento, discernimento para passar adiante. Nunca deixe de escrever seus pensamentos. Esvaziar-se nas folhas escritas à mão te reorganiza como nenhuma fluoxetina o fará.
Deixe passar os caras "errados". O adjetivo que sua intuição captou já diz tudo: não é diversão, é diluição e perda de tempo. E isso vale para homens e mulheres. Deixe todos saberem disso. Estude os feminismos. O mundo precisa de equanimidade.
Pratique gestão de tempo. Vai cair como uma luva. Deixe o açúcar agora. Nunca vai se arrepender de desinflamar o corpo o quanto antes. Diversifique-se nas terapias, mas não pare. Ore mais, mais.
E fique tranquila: "temos nosso próprio tempo" para tudo, inclusive pára recomeçar.
10. REVISTA KEA
Depois de tantas fases vividas, visibilidade, reinvenção e maternidade, o que hoje te dá a sensação de estar exatamente onde deveria estar?
Babi Xavier:
O fato de sentir Deus na minha vida. Com Ele, sinto-me na atualização do meu propósito de vida, sabe?
Sinto-me, agora, por exemplo, recomeçando. Um novo ciclo de vida se inicia, e como isso me anima! Sinto motivação, então estou onde deveria estar. 🎯
Matéria Especial de Capa para Revista KEA - 2026
Equipe: KEA
Por Babi Xavier / Rodrigo Francisco
Assessoria: Rodrigo Francisco
Agradecimentos: Babi Xavier / Rodrigo Francisco / KEA
Fonte: Babi Xavier / Rodrigo Francisco
Publicitário: Rodrigo Francisco
Fotografias: Alex Grand / Edu Rodrigues / Renato Moretti
Make: Babi Xavier / Adriana Debonssens
Make & Hair: João Gati
Figurino: Babi Xavier / Alexandre Schnabl
Assistência de Figurino: Mel Quintanilha
Locação: Hotel Arena Copacabana
Uma cortesia Revista KEA para Babi Xavier e Equipe - 2026
KEA - Ketty Lopes / Aline Souza / Miguel Junior / Cristiane Pavão / Fabiana Rodrigues